Mulheres negras e o lugar de cura de homens negros

Relações afetivas atravessadas pela história

Não surpreende que frequentemente escutemos histórias de mulheres negras que estiveram ao lado de homens negros nos momentos mais difíceis de suas vidas. Muitas foram companheiras, cuidadoras e, em diversos casos, o principal pilar financeiro da família. Entretanto, quando esses homens alcançam ascensão social, não raramente essas relações chegam ao fim e eles passam a construir uma nova imagem pública ao lado de mulheres brancas.

A recorrência dessas narrativas faz surgir uma pergunta inevitável: por que tantas mulheres negras sentem que ocuparam, em algum momento, o lugar da cura de homens negros, mas não o lugar do projeto de vida?

Responder a essa questão exige olhar para além das escolhas individuais. As relações afetivas não existem isoladas da história. Elas são atravessadas por valores, imaginários e estruturas produzidas ao longo de séculos.

O pós-abolição e a centralidade do cuidado

Historicamente, mulheres negras já exerciam uma relação com homens negros de apoio e cuidado, não somente devido ao fator raça como elo e, em muitos casos, uma herança africana matrilinear. Contudo, o pós-abolição também foi determinante para consolidar esse lugar. Muitas dessas mulheres tornaram-se a única fonte de renda de suas famílias, executando trabalhos historicamente associados à escravidão, como o serviço doméstico, o cuidado de crianças e a cozinha nas casas das elites.

Em contrapartida, homens negros se viam à margem nesse período, sucumbindo à criminalização, à drogadição e à morte precoce, devido à ausência de espaços de trabalho. O Brasil vivia um processo de industrialização marcado por uma política de embranquecimento da população, implementada por meio do incentivo estatal à imigração, principalmente de europeus. Somava-se a isso uma política de extermínio direcionada à população negra.

Essa ideia de eliminação da raça negra não constituía apenas uma teoria abstrata, mas uma calculada estratégia de destruição. Como afirma Abdias Nascimento:

“…expostos a toda espécie de agentes de destruição e sem recursos suficientes para se manter.” (NASCIMENTO, 1978, p. 73).

Foi nesse cenário que muitas mulheres negras aprenderam que cuidar não era apenas uma demonstração de afeto, mas uma condição para a sobrevivência coletiva.

Mestiçagem, ascensão social e apagamento da negritude

Paralelamente, a ideia da mestiçagem, ancorada em algumas teorias científicas da época, foi sendo pouco a pouco implementada com o objetivo de diluir a população negra no Brasil, tendo como expectativa sua extinção até o ano de 2012. Nascimento menciona, em O Genocídio do Negro Brasileiro, que, para alcançar ascensão social, a pessoa negra encontrava-se em uma verdadeira encruzilhada de valores. A sociedade escravocrata delimitava o lugar que esse sujeito deveria ocupar e, caso desejasse ascender socialmente, precisava abandonar sua negritude, assumindo o modelo branco como ideal. Indiretamente, essa lógica evocava a ideia de que relações afetivas entre pessoas negras não favoreciam essa ascensão.

O cuidado como herança e destino

Foi nesse contexto histórico que muitas mulheres negras passaram a compreender o cuidado como parte constitutiva de sua existência. Entretanto, transformar o cuidado em destino é uma das heranças mais perversas deixadas pelo colonialismo.

Como argumenta bell hooks, o racismo e o patriarcado retiraram dos homens negros a possibilidade de experimentar e expressar plenamente sua humanidade, produzindo subjetividades marcadas pelo silenciamento emocional, pela dificuldade de demonstrar vulnerabilidade e pela associação da masculinidade à dureza e ao controle. Em We Real Cool: Black Men and Masculinity (2004), hooks afirma que essas feridas precisam ser reconhecidas, mas adverte que sua elaboração não pode ser transferida para as mulheres negras.

Ao longo da história, muitas mulheres negras foram socializadas para acreditar que amar significava compreender tudo, suportar tudo e permanecer, mesmo quando suas próprias necessidades eram constantemente adiadas. Nessa lógica, o amor deixa de ser uma experiência de reciprocidade e passa a assumir contornos de trabalho emocional. A mulher negra torna-se, muitas vezes, o espaço onde o homem negro deposita suas dores, frustrações e expectativas de reconstrução, enquanto ela própria permanece sem um lugar legítimo para expressar as suas.

A crítica de bell hooks e a recusa da lógica do sacrifício

Ao criticar essa dinâmica, bell hooks não responsabiliza os homens negros por todas as violências presentes nas relações afetivas, tampouco ignora os impactos devastadores do racismo sobre suas vidas. Sua crítica dirige-se a um sistema colonial e patriarcal que ensinou homens e mulheres a ocuparem lugares distintos dentro do cuidado: a eles, o direito de serem reparados; a elas, o dever de reparar. Questionar essa lógica não significa negar a importância do cuidado comunitário, mas recusar que a cura das feridas produzidas pelo racismo continue recaindo, quase exclusivamente, sobre os ombros das mulheres negras.

A exposição pública e o julgamento das mulheres negras

Indo ao encontro dessa discussão, não é incomum vermos notícias de mulheres negras da mídia passando pela mesma situação, tendo suas vidas expostas de forma vexatória. Essas notícias quase sempre aparecem acompanhadas de perguntas como: “Ela é tão bonita, por que se sujeitava a isso?”; “Também, um ‘Jurandir’ desses, queria o quê?“.

Quando essa mulher se permite expressar sua dor publicamente, numa tentativa talvez de elaborar seu luto, o julgamento rapidamente aparece. Segundo Souza (1983), saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências e compelida a expectativas alienadas.

Sendo assim, nega-se a essa mulher o direito à expressão do próprio sofrimento, colocando-a, mais uma vez, no lugar historicamente reservado às mulheres negras: o da mulher forte. Mesmo em um momento delicado, no qual sua ferida profunda e ancestral ainda está exposta, ela precisa lidar com críticas que, ao invés de acolher, a julgam e culpabilizam, como se permitir amar alguém e ter sua confiança quebrada fosse de sua responsabilidade.

A desumanização de ambos e a lógica colonial do afeto

Esses comentários são tão perversos que não apenas desumanizam essa mulher, mas também esse homem negro. Enquanto ela é reduzida ao papel de quem deveria suportar tudo, ele permanece aprisionado à lógica de uma masculinidade construída pela colonialidade, que o impede de elaborar suas dores de maneira saudável e recíproca. Ambos tornam-se vítimas de um sistema que transformou o afeto em hierarquia, o cuidado em obrigação feminina e a branquitude em horizonte de reconhecimento social.

 

Referências:

HOOKS, bell. We Real Cool: Black Men and Masculinity. New York: Routledge, 2004.

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

Texto: Juliana Santiago Kamga
@psi.julianasantiago
CRP:06/178670
Email:santiagojuh93@gmail.com

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Coluna da Juliana Santiago Kamga

Juliana Santiago é psicóloga Sistêmica, praticante de uma Clínica Racializada e Afrocentrada.
Experiência como Psicóloga Social, pós graduanda em Terapia Familiar Sistêmica.

@psi.julianasantiago
CRP:06/178670
Email:santiagojuh93@gmail.com

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