Há uma relação profunda entre essas ideias quando pensamos a partir da psicologia sistêmica, da memória colonial e da dimensão simbólica da encruzilhada. Pessoas negras afrodiaspóricas carregam como herança pós trauma colonial, um legado de dor, limitações físicas, emocionais e materiais, ao quais, muitas vezes as levam ficar presas em dinâmicas disfuncionais repetidas. A fixação subjetiva à posição de sofrimento pode ser compreendida como um processo no qual o sujeito permanece identificado com experiências traumáticas passadas, mantendo-se vinculado às marcas emocionais produzidas por elas.
Nessa dinâmica, o sofrimento não se restringe à recordação de eventos anteriores, mas passa a organizar modos de percepção de si, do outro e das relações estabelecidas no presente. Nesse sentido, os efeitos da colonização permanecem atualizados nas formas de vínculo, nas escolhas afetivas e na maneira como determinados sujeitos elaboram a própria história.
Frantz Fanon (2008), destaca que o colonialismo produziu impactos que ultrapassaram a exploração material, operando também na constituição subjetiva da população negra. A dominação colonial instaurou um processo de desumanização que afetou a autoimagem, a autoestima e o reconhecimento de si. A sociedade escravagista, ao transformar o africano em escravizado, definiu o negro como raça, demarcou o seu lugar, a maneira de tratar e ser tratado, os padrões de interação com o branco e instituiu o paralelismo entre cor negra e posição social inferior (SOUZA, 1983). O trauma colonial, portanto, pode ser compreendido como uma ferida histórica que permanece ativa nas gerações subsequentes, manifestando-se em experiências de desvalor, abandono e dificuldade de pertencimento.
A partir da Psicologia Sistêmica, esse fenômeno pode ser lido pela lógica das lealdades invisíveis e da complementariedade relacional. Sistemas familiares e coletivos carregam padrões que se repetem ao longo das gerações, mesmo quando não há consciência sobre eles. A repetição de vínculos disfuncionais pode expressar a tentativa inconsciente de manter fidelidade a dores ancestrais ou experiências precoces de abandono. Assim, pessoas marcadas por histórias de violência ou rejeição podem, sem perceber, estabelecer relações que reproduzem essas dinâmicas, pois o sofrimento, embora doloroso, torna-se familiar e reconhecível.
Nesse processo, a fixação subjetiva à posição de sofrimento pode assumir uma função psíquica específica. Mais do que um estado emocional, ela pode representar uma forma de permanência no passado, mantendo o sujeito identificado à posição de ferido. A insistência em revisitar dores antigas, sem elaboração simbólica, dificulta o contato com o presente e restringe a possibilidade de transformação. O passado, então, deixa de ser memória e passa a operar como estrutura organizadora do futuro. Relações abusivas, experiências de invalidação e repetição de violências podem ser buscadas inconscientemente porque reiteram um lugar subjetivo já conhecido, reforçando a continuidade do trauma. Para Donald Winnicott (1983), o desenvolvimento emocional depende da presença de um ambiente suficientemente bom, capaz de sustentar, acolher e favorecer a integração do self. Quando esse ambiente é marcado por abandono, invasão ou ausência de reconhecimento, experiências de sofrimento podem permanecer não integradas, levando o sujeito a organizar sua existência em torno dessas faltas. Sendo assim, o sujeito busca repetir de forma inconsciente a dor, como tentativa de reencontrar no presente situações semelhantes às falhas originárias, na expectativa psíquica de, finalmente, transformá-las ou obter aquilo que faltou no ambiente que ele não considerou suficientemente bom de forma a integrar o self.
A simbologia da encruzilhada em Èsú oferece uma chave importante para pensar esse movimento. Nas cosmologias afro-brasileiras, Èsú representa abertura, circulação e possibilidade de escolha. A encruzilhada não é apenas espaço de indecisão, mas o ponto onde caminhos diversos se tornam possíveis. Entretanto, para acessar novos percursos, é necessário presença.
Èsú tanto na filosofia yorubá quanto na banto, é o princípio da força revolucionária da ordem frente a desordem, é o Senhor das encruzilhadas, do corpo humano, dos caminhos, da comunidade, é quem dinamiza o universo, ressignifica e descoloniza o caos, é o próprio caos, mas é também a ordem, é signo de resistência, é quem nos ensina a gingar frente o oponente, é quem inclusive cria o oponente para nos fortalecer em nosso desenvolvimento humano. Èsú é quem aciona em nós o movimento constante, a impermanência, a motivação, a criatividade, o axé para que enfrentemos a violência da colonialidade. É quem transgride a ordem estabelecida por um sistema para que estabeleça uma nova forma de organização, é quem circula entre os polos opostos, o positivo e o negativo, o bem e o mal, e nos ensina que ambos os polos são necessários para o equilíbrio universal, pois são também os conflitos, as diferenças, as adversidades e as desordens que potencializam em nós a relação e a comunicação com a nossa Ègbé òrun (comunidade ancestral) e a nossa Ègbé ayé (comunidade da terra). (LIMA, 2024, p. 182).
Sendo assim, permanecer aprisionado ao passado impede perceber as alternativas do presente, conduzindo à repetição de trajetórias semelhantes. O sujeito, ao escolher o conhecido, mesmo que seja doloroso, recria um futuro já determinado pela memória traumática.
Essa repetição revela que o trauma colonial também produz uma temporalidade específica: o congelamento. A experiência subjetiva passa a ser orientada por feridas históricas que não foram elaboradas, fazendo com que decisões atuais sejam guiadas por emoções e significados herdados. O presente deixa de ser espaço de criação e se converte em reencenação. Nesse sentido, o adoecimento psíquico relacionado à população negra não pode ser compreendido dissociado das estruturas coloniais e raciais que moldaram as condições de existência e as formas de subjetivação.
Romper esse ciclo exige mais do que consciência racional; demanda elaboração simbólica, reconhecimento da dor e reposicionamento subjetivo. Sair da repetição não implica negar a violência vivida, mas recusar que ela determine o destino. Como diz Emicida, “Vai, levanta e anda. Irmão, você não percebeu que você é o único representante do seu sonho na face da Terra? Se isso não fizer você correr, chapa, eu não sei o que vai.” (Emicida part. Rael, 2013). A encruzilhada, como metáfora, aponta para a possibilidade de deslocamento: reconhecer o trauma sem permanecer identificado a ele. Assim, o presente torna-se o espaço em que a história pode ser ressignificada, interrompendo a transmissão do sofrimento e abrindo caminhos que não sejam apenas a continuidade das feridas do passado.
Referências:
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
LIMA, Carla Fernanda de. Experiência africana de mundo: a construção de uma psicologia das encruzilhadas. In: MIRANDA, Deivison Warlla; LIMA, Carla Fernanda de (org.). A Psicologia com os pés nas Encruzilhadas. São Paulo: Editora Dialética, 2024.
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
Texto: Juliana Santiago Kamga
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