A influência da colonização e da desvalorização da cultura negra nos estereótipos e nas dificuldades diagnósticas em saúde mental e desenvolvimento
A compreensão da saúde mental e dos processos de desenvolvimento humano não pode ser dissociada de seus atravessamentos históricos, sociais e culturais. Nesse sentido, a colonização desempenhou um papel determinante na imposição de uma lógica eurocêntrica de produção de conhecimento, que estabeleceu parâmetros universais baseados em experiências europeias, em detrimento de outras epistemologias. A desvalorização sistemática da cultura negra, decorrente desse processo, reverbera até a contemporaneidade, influenciando diretamente a construção de estereótipos e as dificuldades nos diagnósticos em saúde mental e desenvolvimento.
Os sistemas diagnósticos psicológicos e psiquiátricos foram elaborados, majoritariamente, a partir de referenciais eurocentrados, desconsiderando a pluralidade cultural existente. Como consequência, critérios utilizados para avaliar transtornos, habilidades e padrões de desenvolvimento não contemplam, de forma adequada, as especificidades das vivências de pessoas negras. Tal limitação favorece interpretações distorcidas, nas quais comportamentos culturalmente situados são frequentemente patologizados.
De acordo com Na’im Akbar (1979), a concepção de um povo impacta diretamente não apenas sua psicologia, mas também suas estruturas sociais, econômicas e religiosas. A partir dessa perspectiva, a desvalorização da cultura negra contribui para a construção de subjetividades atravessadas por estigmas e distorções, que se refletem no campo da saúde mental.
Nesse contexto, expressões culturais, formas de comunicação, estratégias de enfrentamento e manifestações emocionais de indivíduos negros tendem a ser interpretadas como inadequadas ou sintomáticas quando analisadas sob uma ótica eurocentrada. Em contrapartida, sofrimentos psíquicos legítimos são frequentemente negligenciados ou reinterpretados de maneira reducionista. Crianças negras, por exemplo, são comumente rotuladas como “problemáticas” ou “indisciplinadas”, sem que haja investigação aprofundada de possíveis questões emocionais ou neurodesenvolvimentais. De forma semelhante, em adultos, sintomas de ansiedade, depressão, síndrome de burnout, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou altas habilidades/superdotação podem ser equivocadamente compreendidos como traços de personalidade.
Além disso, a prática clínica evidencia que intervenções que incorporam elementos culturais, como atividades grupais, música e expressão corporal, apresentam efeitos positivos na redução de sintomas ansiosos, depressivos e de esgotamento emocional. Tais práticas favorecem o fortalecimento do sentimento de pertencimento, promovendo regulação emocional e reconexão identitária. Esse aspecto reforça a importância de abordagens culturalmente sensíveis no cuidado em saúde mental.
Outro ponto relevante refere-se às distorções das consciências africanas, apontadas por Akbar (1979) como base de diversos problemas enfrentados pela população negra. Essas distorções impactam não apenas o reconhecimento do sofrimento, mas também a identificação de potencialidades. Indivíduos negros com altas habilidades frequentemente não são reconhecidos ou incentivados, devido a estereótipos raciais que os afastam da associação com inteligência e desempenho acadêmico elevado. Esse processo contribui para o desinteresse por conteúdos considerados normativos e para a invisibilização dessas capacidades.
Ademais, o racismo estrutural atua como um fator limitante no acesso a serviços de saúde de qualidade, bem como a espaços e recursos que favoreçam o desenvolvimento pleno. Tal cenário intensifica tanto o subdiagnóstico quanto os diagnósticos equivocados em pessoas negras, especialmente no que se refere à neurodivergência e às altas habilidades.
Diante do exposto, torna-se evidente que as dificuldades diagnósticas em saúde mental e desenvolvimento não se restringem a questões técnicas, mas estão profundamente relacionadas a processos históricos e sociais. A revisão crítica dos instrumentos diagnósticos, aliada à incorporação de perspectivas culturalmente diversas, é fundamental para a construção de práticas mais éticas e equitativas. Reconhecer os impactos da colonização e do racismo na produção de conhecimento psicológico constitui, portanto, um passo essencial para a promoção de uma saúde mental verdadeiramente inclusiva.
Referência:
AKBAR, Na’im. African Roots of Black Personality (1979). In: Akbar Papers in African
Psychology. Florida: Mind Productions 7 Associates, Inc., 2003. p. 93 – 106
Texto: Juliana Santiago Kamga
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